Crônicas

O velho saudosismo de todos nós

Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados.

— Bom mesmo era no tempo do finado Clécio! Aquele galego era dos bons! Com ele, não tinha essa bagunça que virou esse condomínio!

Peço desculpas pela interrupção, mas a amiga haverá de entender a indignação do infeliz morador. São altas horas da madrugada, e o pobre coitado ainda não conseguiu pregar os olhos. O antigo síndico, Clécio de Andrade, era um capitão reformado do Exército. Sujeito de poucos amigos, com sessenta e tantos anos de idade, fazia da administração daquele condomínio a sua grande profissão de fé. Após tantos anos de caserna, gerenciava-o com a mesma disciplina que um jovem tenente costuma liderar seu pelotão. Aqueles eram outros tempos, e, de fato, os moradores do Edifício Baronesa de Itu não desfrutavam mais das mesmas paz e tranquilidade. Hoje em dia, seu Clécio não está mais entre nós, aquelas antigas famílias já não moram mais ali, e a maioria dos condôminos é formada por estudantes que vieram do interior do estado. Não se tem mais aquele senso de comunidade, sabe?

— Antigamente, os jogadores honravam a camisa do time. Agora, só querem saber de dinheiro, festinha e badalação. E é um mais perna de pau que o outro!

Já esse é o seu Manoel, um ilustre futebolista frustrado do bairro. Nunca o vi jogar, mas todos dizem que era bom de bola. Parece que foi até selecionado para jogar por um grande clube de São Paulo, mas uma grave lesão no joelho o tirou dos campos. Privado de seu sonho de menino, continuou acompanhando os jogos do seu time do coração como torcedor fanático que é. O problema é que a atual fase não é das melhores, e aquela esquadra tem sucumbido com frequência aos adversários. Para contrastar com o presente de sucessivas e vexatórias derrotas, o longínquo passado de gloriosos títulos ainda alenta o sofrido coração daquele aficionado. Mas é impossível não associar a decadência atual do futebol local aos problemas contemporâneos da juventude e aos excessos midiáticos que envolvem as estrelas do mais popular dos esportes. As mais disseminadas teses sociológicas de botequim convergem em afirmar que o futebol de outrora era muito melhor do que o praticado atualmente. Também pudera! Como comparar Pelé e Garrincha com o que se tem hoje?

— Essa roubalheira toda não tem fim, mesmo! Antigamente, a gente ainda via político honesto e de brio! Hoje é só sem-vergonha corrupto!

Essa foi a primeira reação de dona Marina, ao ler a notícia de que o fundo de pensão dos servidores municipais estava envolvido numa falcatrua das brabas. Dos pormenores do esquema, ela não sabia dizer muita coisa. Mas estava convicta de que, quando jovem, essas maracutaias não ocorriam. Claro está que sempre houve malandros ali e acolá querendo levar vantagens indevidas. E, evidentemente, na política não era diferente. O problema é que, para ela, a desfaçatez tinha se difundido tanto, que o que costumava ser a triste exceção virou a perniciosa regra. De suas reminiscências mais distantes, nada havia de menção aos desvios de verba pública tampouco às compras de votos. Não é para menos! Prestes a gozar de sua aposentadoria do serviço público municipal, preocupava-se com os efeitos que um possível rombo naquele fundo geraria sobre sua renda. Naquele edulcorado passado, não tinha tantas contas para pagar nem uma custosa artrite reumatoide para tratar.

O passado brindou-nos com uma vida mais tranquila e pacata; Pelé e Garrincha não mais encantam o mundo futebolístico; e os larápios de hoje envergonham os de ontem. Frente a sentenças do tipo, o presente resigna-se com a sua contumaz inferioridade. Sujeito de boa autoestima, sabe que mais cedo ou mais tarde suas qualidades serão reconhecidas e rememoradas por todos nós. O desprezo com que muitas vezes ele é tratado não é capaz de sustentar sua condenação de primeiro grau. Quando essa injustiça salta aos olhos, o próprio tempo dá um jeito de reparar os erros de nosso incauto juiz interno. Diferentemente do passado, tipo impertinente e egocêntrico, o presente tem paciência de sobra para que seus defeitos sejam esquecidos e suas qualidades, realçadas.

Não sei por que me estendo em demasia nessa argumentação. Antigamente, conseguia ser mais claro e objetivo. Já hoje em dia, quando sou interrompido abruptamente, perco-me em divagações e em solilóquios. Na verdade, acho que bom mesmo era quando não havia tempo a perder com especulações desse tipo. Mas naquela época eu reclamava da escassez de tempo… Ah, esse velho saudosismo de todos nós!

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Guilherme Backes

Guilherme Backes é bacharel em Relações Internacionais pela UFSM e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Gaúcho de Cruz Alta, atualmente reside na cidade de São Paulo. Estudioso de temas políticos e sociais, vê a Literatura não apenas como um refúgio pessoal, senão também como uma ferramenta para mergulhar mais profundamente nas entranhas de nossa sociedade. Escreve às quarta-feiras no Crônicas Cariocas

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